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Novo medicamento contra o câncer de pulmão surpreendem a comunidade científica mundial

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Dos 30.000 brasileiros que recebem o diagnóstico de câncer de pulmão a cada ano, apenas 6.000 sobreviverão à doença em cinco anos. Mesmo com todos os recentes avanços ocorridos na oncologia, o tratamento do tumor pulmonar maligno ainda é um grande desafio para a medicina. A nova terapia apresentada no Congresso da Sociedade Europeia de Oncologia, na Dinamarca, é uma extraordinária janela de esperança.




O composto, com o nome de pembrolizumabe, reduziu pela metade o risco de progressão da doença e em 40% o risco de morte. “São resultados que representam uma quebra de paradigma“, diz o oncologista Artur Katz, chefe do serviço de oncologia clínica do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

Um paciente do hospital que é cirurgião-dentista de 65 anos foi diagnosticado com câncer de pulmão em abril, e agora faz parte do grupo dos 110 brasileiros que estão usando o pembrolizumabe durante os estudos desenvolvidos no Instituto Nacional do Câncer (Inca), um dos vinte centros que testam o composto no Brasil. Nos últimos meses, o paciente recebeu três doses do medicamento por injeção intravenosa. Até agora, o tumor foi reduzido em 30% e a disposição do dentista para as tarefas do dia a dia, então abalada pela doença, foi recuperada.

Testado pelo laboratório americano MSD, o pembrolizumabe pertence a uma das frentes mais promissoras na luta contra o câncer, a imunoterapia. Esse tipo de tratamento tem por base ativar o sistema imunológico para combater as células cancerígenas.

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O mecanismo é extremamente preciso e sofisticado. Consiste, essencialmente, no ataque a duas proteínas: a PD-1 e a PD-L1 (PD é a sigla em inglês para “morte programada”). Em uma pessoa saudável, essas proteínas contribuem para a regulação do sistema imunológico, determinando quando ele deve ou não ser ativado. Ocorre que a célula tumoral utiliza essas proteínas para se camuflar e parecer saudável, enganando o sistema imunológico, que não a reconhece como inimiga e com isso o tumor continua crescendo. A nova terapia visa a desabilitar a PD-1, eliminando o esconderijo do tumor e levando as defesas do organismo a reconhecer o câncer e atacá-lo.




A imunoterapia já é usada com efeitos positivos nos cuidados com o melanoma, o tipo mais agressivo de câncer de pele. Ela também está sendo estudada para o tratamento do câncer gástrico, colorretal, de mama, rim e bexiga. No pulmão, é a primeira vez que se vê um efeito tão promissor e ainda capaz de substituir a quimioterapia, o tratamento mais comumente usado contra a doença.

Os quimioterápicos agem não apenas nas células tumorais, mas também atacam as células normais do organismo, com uma série de efeitos colaterais. Um dos grandes obstáculos para o combate ao câncer de pulmão é a dificuldade na detecção precoce da doença. Diz Antonio Carlos Buzaid, diretor da oncologia da Beneficência Portuguesa e membro do comitê gestor do centro oncológico do Hospital Albert Einstein, em São Paulo: “O câncer pulmonar é um dos poucos absolutamente silenciosos; o paciente não tem dor e não consegue senti-lo no toque. Quando sente algo, ele já está avançado” diz Buzaid.

Os sintomas mais comuns são tosse frequente, com ou sem sangue, desânimo, falta de ar, dor no tórax ao respirar e perda de peso. Por suas características biológicas, as células do câncer pulmonar se propagam velozmente.

Estima-se que sete em cada dez pacientes já cheguem ao consultório médico com a doença disseminada. Há ainda uma agravante: o hábito de fumar, associado à maioria dos tumores pulmonares. Os compostos tóxicos presentes no cigarro provocam mutações nas células que tornam o câncer mais agressivo. Por tudo isso, o tumor de pulmão chega a ser três vezes mais letal que o câncer de mama.

Com essa história de sucesso, prevê-se que o pembrolizumabe seja aprovado pela FDA, a agência americana reguladora de medicamentos, já no decorrer de 2017. Será recomendado como primeira opção de tratamento para um grupo de pacientes com tumores pulmonares em estágio de metástase.